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A Geologia da Salgadeira

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

A Salgadeira é um local que marca lembranças de muitas pessoas na

região metropolitana de Cuiabá, devido à sua importância como espaço de

lazer e contato com a natureza, que ao longo de décadas representou um

refresco nos dias quentes da baixada cuiabana. Porém, a região da Salgadeira

também conta uma interessante história geológica, com registro de

cordilheiras, mares e desertos que já existiram em outros momentos da história

do nosso planeta. Neste texto, vou contar um pouco dessa história.

Não é difícil observar que a Cachoeira da Salgadeira é composta por

dois tipos de rochas distintas. Na base, existem rochas compostas por argilas,

com camadas inclinadas, que parecem que foram cortadas na parte superior.

Essas rochas contam uma longa história, algo entre cerca de 1 bilhão e uns

500 milhões de anos. As camadas que ali estão já foram o fundo de um mar;

depois, devido aos processos tectônicos relacionados à movimentação das

placas tectônicas, esse fundo de mar se fechou, formando uma grande

cordilheira. Essa cordilheira foi sendo erodida pouco a pouco, e é aí que

começa a história das rochas que marcam o topo da cachoeira.

Não é difícil ver que as rochas do topo estão em camadas horizontais,

formadas por conglomerados (cascalhos) e areias. Essas rochas marcam a

entrada do mar sobre nossa região por volta de 419 milhões de anos. Sim, a

Chapada já foi mar, e a Salgadeira já foi uma área próxima a uma praia. Quem

fica tomando banho no rio, na parte superior da Salgadeira, justamente fica

sobre essas rochas que registram o início da entrada do mar sobre nossa

região. Outra curiosidade, é que a linha que marca o contato das camadas de

topo, com a camada da base, representa a antiga superfície de erosão que

existia no local quando o mar entrou sobre a região.

Mas isso não é tudo: existe um outro fato muito curioso. As águas da

Cachoeira da Salgadeira vêm do Aquífero Guarani — sim, aquele mesmo que

você já escutou falar na escola ou na televisão. Uma parte desse importante

aquífero está bem ali na região das nascentes do córrego da Salgadeira. E o

mais interessante: as rochas que hoje guardam as águas do aquífero já foram

um grande deserto entre cerca de 150 e 130 milhões de anos. Quando você

estiver subindo para a Chapada, repare nos paredões vermelhos de arenito;

você verá as marcas de estratificações que mostram os antigos pedaços de

dunas que ficaram preservados ali. A água que fica armazenada entre os grãos

de areia desse antigo deserto, que funciona como grande esponja natural, é

justamente a água do Aquífero Guarani. E daí vem a água da Salgadeira, do

Rio Claro e de muitos outros que nascem na região.

Como as rochas e o solo são a base da biodiversidade, é claro que as

mudanças nesses elementos de geodiversidade também proporcionam

mudanças no ambiente, influenciando quais plantas e animais existirão em


cada local. Tudo isso faz da região da Salgadeira uma área com grande

biodiversidade e geodiversidade, um local que, além de proporcionar lazer,

também possibilita entender melhor a história do planeta.

Geólogo, Doutor cotutela em Geociência e Meio Ambiente (UNESP) e

Environmental Sciences (Universidade de Tubingen), Professor na UFMT,

Presidente da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO)


 
 
 

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